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AFTER: A saga que desaba em câmera lenta

  • Foto do escritor: Nicole Micheletti
    Nicole Micheletti
  • 24 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

After tenta ser um romance arrebatador, mas acaba mostrando só uma coisa: até o drama tem limite, e esses filmes passaram dele faz tempo.

Laura Loch



A saga After representa um dos casos mais evidentes de esgotamento narrativo no cinema recente. O que poderia ser um romance dramático juvenil se converte, ao longo dos filmes, em uma experiência desgastante e muito, muito repetitiva. A cada sequência, torna-se mais claro que a franquia não exibe uma trajetória de amadurecimento dos personagens, mas sim um desgaste progressivo de ideias e de estrutura.


O primeiro filme já revela os principais problemas que se intensificaram nos seguintes. A premissa parece depender exclusivamente do arquétipo do “bad boy torturado” e da “garota ingênua que será transformada pelo amor”, mas o desenvolvimento desses elementos é raso, previsível e inteiramente fundamentado por repetições. Hardin é apresentado como uma figura supostamente complexa, mas sua profundidade emocional se limita a crises de raiva, comportamentos impulsivos e explosões extremamente dramáticas que não produzem consequências reais. Tessa, por sua vez, oscila entre a racionalidade e decisões impulsivas que contrariam sua personalidade inicial, sempre retornando ao mesmo ponto de fragilidade que o enredo exige.


Essa falta de evolução faz com que o relacionamento não cresça, e sim se reproduza de maneira automática. As discussões do casal não abrem espaço para amadurecimento, elas apenas se acumulam, retornando às mesmas dinâmicas disfuncionais que já haviam sido apresentadas em outras discussões idênticas entre os personagens. O conflito deixa de ser uma ferramenta narrativa e se torna um vício estrutural. A cada nova crise, em vez de aprofundamento emocional, o que se vê é uma repetição quase mecânica das mesmas tensões, das mesmas reações e das mesmas tentativas de reconciliação que anulam qualquer avanço na trama.


A crítica publicada pela Variety, vai de acordo com isso, que ao ser escrita por Courtney Howard, sintetiza também esse problema ao afirmar que o filme “continua surpreendendo com o quão previsível tudo acaba sendo”. Essa definição não apenas descreve o primeiro longa: ela antecipa tudo o que a franquia se tornará. Os filmes seguintes não expandem a história; apenas prolongando um drama que não cresce e que não se sustenta.


À medida que a saga avança, a deterioração narrativa se torna mais evidente. Os roteiros apresentam eventos desconexos, diálogos artificiais e uma direção que tenta compensar a fragilidade estrutural através de estética romantizada: fotografia suave, trilhas melancólicas e ambientações que tentam sugerir emoção onde o texto não consegue sustentá-la. O resultado é um conjunto de cenas que parecem emocionalmente carregadas, mas que, ao serem analisadas, revelam-se vazias, sem motivação interna e sem continuidade dramática.


Os personagens, presos nesse ciclo de imaturidade, deixam de parecer figuras humanas para se tornarem instrumentos de receita. Seus comportamentos são tão previsíveis que minam qualquer expectativa do espectador de testemunhar evolução ou ruptura. A narrativa falha em construir arcos, limita-se a encenar o mesmo conflito em diferentes ambientes, com pequenas variações superficiais, como se o simples deslocamento espacial bastasse para sugerir novidades.


Nos capítulos finais da saga, essa falência criativa já não é apenas perceptível: é incontornável. As tramas parecem montadas às pressas, sem aprofundamento, sem reflexão e sem coesão. Momentos dramáticos surgem sem preparação e desaparecem sem consequência. Conexões entre cenas são frágeis, personagens entram e somem sem justificativa, e o enredo, incapaz de sustentar sua própria densidade emocional, se desfaz diante dos olhos do espectador.


No conjunto, After se revela um estudo involuntário de como um romance cinematográfico pode fracassar quando confunde intensidade com tumulto, paixão com instabilidade e desenvolvimento com repetição. A franquia se apoia em ciclos dramáticos esgotados, evitando qualquer confrontação real com os temas que introduz. Em vez de explorar o amadurecimento de seus protagonistas, insiste em mantê-los aprisionados nas mesmas dinâmicas caóticas e improdutivas, como se a simples repetição fosse suficiente para criar profundidade.


O resultado final é uma saga que não evolui, não se reinventa e não se sustenta. After falha justamente onde pretende ser mais forte: no retrato de um romance transformador. O que se vê, ao longo dos filmes, é uma narrativa que se dissolve progressivamente, incapaz de sustentar sua própria promessa emocional, ecoando perfeitamente o diagnóstico inicial: uma obra derivativa, previsível e emocionalmente rasa.




 
 
 

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