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Lanterna Verde: Quando a luz acaba antes do filme

  • Foto do escritor: Nicole Micheletti
    Nicole Micheletti
  • 30 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

Uma viagem interestelar que prova que nem toda energia do universo salva um roteiro fraco.

Renan Pagani



Se existe um filme que comprova que nem todo herói deveria ter sido adaptado às pressas, é o Lanterna Verde. A produção de 2011, que pretendia inaugurar um novo ciclo de grandes épicos da DC, acabou se tornando um caso  sobre como um projeto milionário pode falhar em absolutamente todas as etapas possíveis. Era para ser um grande filme, repleto de efeitos  visuais fora do comum , criaturas alienígenas nunca visto antes e um grande sucesso nas bilheteria. Em vez disso, o que chegou ao público foi um produto tão desajeitado,  confuso e raso que rapidamente  virou motivo de piada até mesmo para seus próprios responsáveis, incluindo Ryan Reynolds, que praticamente transformou o filme em material oficial de autodepreciação ao longo da carreira.


A história de Hal Jordan, um piloto talentoso, porem  arrogante que recebe um anel capaz de transformar imaginação em poder puro, tem potencial de sobra. Nos quadrinhos, Hal é um herói de enorme profundidade psicológica e faz parte de uma das mitologias mais ricas da DC Comics. Entretanto, no filme, tudo é tratado com a seriedade de um comercial de brinquedos. O roteiro parece permanentemente indeciso, como se estivesse sendo reescrito a cada nova cena. Ele tenta ser cômico, mas o humor nunca encontra o tempo  certo. Ele  tenta ser épico, mas suas cenas de ação são muito fracas e quando  tenta ser dramático,o roteiro não consegue construir  uma relação  emocional e comoção  suficiente para que o público se importe com qualquer conflito. O resultado é um herói apático   que não sabe o que quer ser e, pior, não consegue ser nada direito.


O visual, que deveria ser a grande atração, se transforma rapidamente no maior problema. Os efeitos especiais envelheceram mal antes mesmo da estreia e o uniforme digital de Hal Jordan virou chacota rapidamente . Brilhante, plástico, texturizado de forma estranha e completamente desconectado do corpo do ator, o traje parece mais uma animação provisória esquecida no corte final. Cada vez que aparece na tela, transmite a sensação de que a equipe criativa não conversou com ninguém que entendesse realmente de design, cinema ou estética. Surpreende que, entre tantos profissionais envolvidos, ninguém tenha levantado o questionamento de que o uniforme estaria tosco e completamente desconectado do que ele pode representar.


Nem o carisma de Ryan Reynolds, que mais tarde mostraria seu talento interpretando Deadpool, consegue fazer milagre aqui. Ele tenta, claro. Se esforça para dar leveza, tenta equilibrar humor com heroísmo, mas o texto que recebe é tão pobre que nada funciona de verdade. Os diálogos soam artificiais e o arco dramático de Hal não passa de uma sequência de frases motivacionais genéricas. Falta evolução, carisma e acima de tudo conexão entre o herói e o público.


Os antagonistas não ficam atrás nessa lista de desperdícios. Hector Hammond, interpretado por Peter Sarsgaard, até poderia ser interessante, mas sua trama parece existir em um filme completamente diferente. Nada se encaixa. Nada se conecta. Ele se torna apenas um personagem esquisito preso em cenas que não levam a lugar algum. Já Parallax, que deveria ser uma entidade cósmica temível, aparece como uma nuvem amarelada com expressão de alguém totalmente perdido. É difícil levar a ameaça a sério quando ela parece saída de uma animação descartada de um videogame.


O universo da Tropa dos Lanternas Verdes, que deveria ser o ponto alto, sofre um dos maiores apagões criativos do filme. Em vez de mundos vibrantes e culturas alienígenas complexas, temos cenários digitais sem vida, povoados por figurantes produzidos às pressas. Kilowog, Tomar-Re e até Sinestro, personagens essenciais para qualquer fã ,são reduzidos a participações vazias, que mais parecem desculpas para que a Warner pudesse afirmar que “estava respeitando os quadrinhos”. Mas nada ali transmite real importância, nada soa grandioso. É a promessa do épico sendo substituída por um trabalho feito bastante às pressas.


No final, Lanterna Verde não é apenas um filme ruim. Ele é um símbolo de desperdício criativo, financeiro e narrativo. É o exemplo perfeito de como uma obra pode possuir todos os elementos necessários para brilhar e ainda assim falhar espetacularmente por falta de direção clara, ousadia verdadeira e respeito pelo próprio material de origem. Com o passar dos anos, o filme ganhou uma reputação quase folclórica: virou referência constante quando o assunto é “piores adaptações de super-heróis”. E, sinceramente, faz jus ao título.


Se havia alguma força de vontade envolvida no projeto , ela provavelmente ficou em algum rascunho esquecido na sala dos roteiristas. Porque no produto final, definitivamente, não está. O filme tenta voar, tenta acender, tenta brilhar… mas não consegue nem sair da pista.

 

 
 
 

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