Resident Evil: Bem-vindo à Raccoon City é um apocalipse cinematográfico
- Nicole Micheletti
- 30 de nov. de 2025
- 4 min de leitura
Uma adaptação confusa, caótica e sem carisma de uma franquia de videogames histórica
Felipe Jacobsen

Resident Evil: Bem-vindo à Raccoon City foi lançado em 2021 e é mais uma tentativa frustrada de adaptar o que é uma das sagas de jogos de terror mais aclamadas pela crítica e pelo público. O filme se baseia nos dois primeiros títulos da franquia, Resident Evil 1 e 2, porém como já era esperado, essa mistura não rendeu bons frutos.
O longa falha ao tentar unir a história dos dois primeiros jogos, o que torna uma história complexa e cheia de profundidade em uma trama fragmentada, corrida e incapaz de transmitir a real essência dos clássicos. Em diversos casos as adaptações desagradam somente os fãs da obra original, porém Resident Evil: Bem-vindo à Raccoon City não é um deles, já que qualquer um que vá assistir percebe quase que de imediato a falta de capricho que a produção cinematográfica possui, tanto que possui uma nota no Metacritic de 44/100 da crítica e outra de 36/100 do público.
Para quem não conhece, os jogos são de survival horror, onde você está na cidade de Raccoon City e por conta de um vazamento químico de uma empresa “farmacêutica” chamada Umbrella, ocorre um apocalipse zumbi. O primeiro jogo foi lançado em 1996 e você joga com dois policiais, a Jill Valentine e o Chris Redfield, que junto de sua equipe vão investigar o que está acontecendo em uma mansão que pertence à Umbrella e acabam encontrando infectados. Já o segundo foi lançado, dois anos depois, em 1998 e ganhou seu remake em 2019. O jogo se passa na delegacia da cidade, dois meses após os eventos do primeiro e em ambas as versões você joga com Leon Kennedy, outro policial, e Claire Redfield, irmã de Chris.
Antes de comentar sobre personagens, roteiro e decisões narrativas que já adianto serem pífias, preciso falar sobre a parte técnica. Os efeitos especiais do longa são vergonhosos, desligam a suspensão da descrença e fazem com que o medo seja mínimo ou nulo. Vou ser franco com vocês, teve momentos, em um filme que era para ser de terror, em que dei risada. Além dos efeitos, a atuação do elenco não convence, porém acredito nem ser culpa dos atores em si, mas de um roteiro preguiçoso.
Em termos de história, o filme faz algo que realmente me impressionou. Mesmo com a faca e o queijo na mão, os roteiristas conseguiram estragar uma narrativa que já estava pronta e bem construída nos jogos. Eles só tinham trabalho: adaptá-la para o cinema e nem isso eles foram capazes de fazer. Sinceramente, parece que nem um deles realmente havia jogado os jogos.
Para começar, enquanto produziam o roteiro, pensaram que seria interessante fazer com que o primeiro e o segundo jogo se passassem ao mesmo tempo, coisa que não acontece na obra original. Nos games, os eventos do segundo e do terceiro que acontecem simultaneamente. Com essa alteração a trama do terceiro título é inviabilizada, foi jogada no lixo, já que a Jill, protagonista do jogo está na mansão, onde não deveria estar se fosse para seguir à risca o que acontece no videogame.
Falando na Jill, não posso passar pano para o casting da Hannah John-Kamen, que interpreta a personagem, já que sua aparência é totalmente diferente da dos jogos. No entanto, essa não foi a pior decisão de um profissional para compor elenco, porque para mim, dentro de todo caos que o filme apresenta em sua adaptação, a pior coisa é a Avan Jogia como Leon Kennedy.
O que fizeram com o personagem deveria ser considerado um crime. Além do ator não se parecer nada fisicamente com o Leon, os roteiristas conseguiram transformar um dos personagens mais amados pelos fãs da saga, justamente por sua coragem, competência e importância narrativa em uma versão desajeitada, insegura e completamente descaracterizada. No filme, o Leon é reduzido a um alívio cômico, alguém que não parece ter nenhum preparo policial, falo isso porque em diversas cenas isso é evidenciado. Em uma delas, o personagem não sabe como usar uma dose, enquanto a Claire, que é apenas uma civil, sabe.
Com menos intensidade em comparação ao Leon, também descaracterizaram a Claire. Por mais que a aparência da atriz seja a mais fiel a dos jogos dentro do elenco, a personagem virou uma mulher prepotente, arrogante e, sinceramente, insuportável.
Em um geral, o elenco não tem química e muito menos carisma. Você, espectador, não se importa com nenhum dos personagens que o filme apresenta, por mais que nos jogos eles tenham personalidades fortes, histórias bem definidas que fazem o jogador criar um vínculo emocional verdadeiro, em Resident Evil: Bem-vindo à Raccoon City, nada disso acontece, é tudo muito raso, apressado e sem nenhuma profundidade.
Portanto, mais uma vez essa franquia que conquistou os corações diversos jogadores pelo mundo, teve sua história adaptada para o cinema de forma descuidada, desconexa e muito aquém do potencial que sempre demonstrou nos videogames. O meu conselho para você caro leitor que não conhece os jogos, não formule sua opinião sobre a saga a partir desse fiasco. Jogue os jogos que garanto que irá se apaixonar por esse universo tão rico, envolvente e cheio de personalidade. Personalidade essa que infelizmente o filme não conseguiu transmitir.
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