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Riverdale: Quando uma Série Troca Coerência por Puro Caos Televisivo

  • Foto do escritor: Nicole Micheletti
    Nicole Micheletti
  • 20 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

A produção que começou como teen-noir estilosa terminou como um laboratório de absurdos narrativos

Sophia Maripensa


Quando Riverdale estreou em 2017, parecia que a CW (Rede televisiva Norte-Americana) finalmente tinha feito algo que ninguém esperava. Transformar a Archie Comics num teen-noir (subgênero sombrio em um universo adolescente) estiloso, misterioso e relativamente coerente. A primeira temporada entregava uma estética interessante, um enigma central eficiente e um elenco afinado com a proposta. Tanto que, no Rotten Tomatoes, ela abriu com 88% de aprovação, indicando que a crítica via ali uma série que brincava com clichês adolescentes sem se tornar refém deles.


Mas, como tudo que começa organizado demais, Riverdale decidiu correr na direção oposta. A série parecia disposta a provar que não existia limite narrativo que ela não pudesse ultrapassar. Porém, a partir da terceira temporada, o que antes era exagero controlado virou um festival de escolhas que fariam até roteiristas de telenovelas dos anos 90 erguerem a sobrancelha. O jornal The Guardian percebeu e satirizou as loucuras que começaram a acontecer a partir da terceira temporada:



“Nem sempre foi assim… mas na 6ª temporada eles já estavam abordando abduções alienígenas e viagens no tempo.”


Aliens. Magia. Superpoderes. Viagem no tempo. Universos paralelos. Linha do tempo reescrita. Cultos. Gangues juvenis. Gárgulas místicos. Serial killers familiares. Realidades alternativas com versões duplicadas. Uma cidade amaldiçoada que prende seus moradores. O apocalipse. Tudo isso em uma mesma série.


A crítica frequentemente menciona que os personagens da série perderam qualquer traço de desenvolvimento lógico. No Metacritic, há avaliações que chegam ao extremo de chamar os arcos de “incoerentes ao ponto do nonsense” e alegam que “a narrativa parece feita sem qualquer compromisso com consequência ou evolução”. A série passou de crimes e violações ousadas para a delitos automáticos, daquelas que servem mais para tentar chocar do que para sustentar um universo narrativo. 


O problema maior não são os absurdos que acontecem, mas sim a falta de intenção por trás do absurdo. Séries bem-sucedidas usam exagero para produzir comentários, sátira, crítica social ou desconstrução de gênero. Riverdale usa exagero como quem usa glitter, sem critério, estratégia e medo de deixar sujeira no chão. O resultado é que aquilo que poderia ser uma reinvenção se tornou um carnaval de acontecimentos desconectados, onde nada importa porque tudo acontece.


Para o 404 Qualidade Não Encontrada, que trabalha com ironia consciente e crítica pop embasada, Riverdale representa um exemplo perfeito de quando uma produção cultural se perde em sua própria tentativa de ser “diferente”. O que começa como subversão vira falta de foco. O que era ousadia vira ruído. O que poderia ser sátira vira, involuntariamente, autocaricatura.


Na era do streaming, onde centenas de séries disputam atenção, a lógica da escalada infinita (mais choque, mais plot twist, mais loucura) virou um mecanismo de sobrevivência. A série não tenta contar uma história, mas sim, tenta garantir que você volte porque não sabe qual será a próxima insanidade.


O final da série, em 2023, reforçou essa percepção. O The Guardian descreveu o encerramento como “um fim tão bizarro que parece escrito para vencer uma aposta interna sobre quem conseguia propor a ideia mais improvável”.


Riverdale virou objeto de estudo cultural, não porque é boa, mas porque tentou absolutamente tudo. Ela é resultado direto de um ecossistema no qual o algoritmo influencia tanto quanto o roteirista, o barulho importa mais que a construção e que cada temporada precisa se superar, mesmo que isso signifique destruir toda a lógica que veio antes. O público é jogado num liquidificador narrativo e, de alguma maneira, continua engajado, não porque a história faz sentido, mas porque a história nunca para.


No fim, Riverdale é um excelente exemplo de como uma obra pode morrer justamente pelo excesso de vida. Tudo acontece, o tempo todo, com todos os personagens, em todas as dimensões. Nada evolui, nada se conclui. É a produção audiovisual onde o espetáculo engole a narrativa e o ruído engole a intenção.


E talvez essa seja a crítica mais adequada: Riverdale não fracassou por ser absurda. Ela fracassou porque esqueceu de ser qualquer outra coisa além disso.

 
 
 

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